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quarta-feira, 17 de fevereiro de 2016

Congresso Internacional de Neurointensivismo da ABNI

O Neurointensivismo é uma especialidade que tem evoluído rapidamente nos últimos anos. Cientificamente, estudos clínicos e recomendações importantes foram publicados, revistas especializadas ganharam espaço e congressos voltados para a área tornam-se cada vez mais concorridos. No Brasil o interesse crescente de intensivistas, neurologistas e neurocirurgiões, assim como o aumento do número de unidades de terapia intensiva neurológica, culminaram na fundação da Associação Brasileira de Neurointensivismo (ABNI) em junho de 2015. A ABNI reúne médicos de todo Brasil que atuam em neurointensivismo e visa compartilhar conhecimento, desenvolver um currículo para formação de especialistas e consolidar no futuro o neurointensivismo como mais uma das áreas de atuação da medicina intensiva.


O I Congresso Internacional de Neurointensivismo (CONINI), primeiro evento científico organizado pela ABNI, tem como objetivo promover o debate em torno de novas estratégias de melhoria do desfecho de pacientes com doenças neurológicas graves, através da colaboração multiprofissional e da disseminação transdisciplinar do conhecimento científico.

Para isso, contaremos com uma programação acadêmica de alto nível científico, com convidados estrangeiros e nacionais que são expoentes mundiais na área da medicina intensiva neurológica. O I CONINI oferecerá, ainda, cursos teórico-práticos pré-congresso de Doppler Transcraniano (DTC), manejo avançado do AVC isquêmico, workshop de neuromonitorização e neuroimagem. Será uma incrível oportunidade para revisarmos o estado da arte sobre neurointensivismo e contribuírmos para que o diálogo entre pesquisa e a prática clínicas avance em direção ao futuro.

DATA:  13 e 14 de Maio de 2016
LOCAL: Rio Othon Palace

Link para site oficial

sexta-feira, 11 de setembro de 2015

TRATAMENTO DO VASOESPASMO


                O vasoespasmo cerebral tardio é uma complicação grave após hemorragia subaracnoidea (HSA). O vasoespasmo é uma causa importante de morte e contribui para 10-12% da mortalidade geral após HSA, e que atinge cerca de 50% durante o primeiro mês.  Embora haja uma correlação entre a gravidade de um espasmo volumoso de artérias e isquemia sintomática, há pacientes com espasmo de grandes artérias que nunca tornam-se sintomáticos e outros com espasmo bastante modesto, que não apenas desenvolvem sintomas, mas também se desenvolve o infarto.

                Não há atualmente nenhuma terapia ou profilaxia específica para o vasoespasmo. O baixo sucesso das estratégias atuais de tratamento pode ser devido a um conhecimento insuficiente sobre a sua fisiopatologia, apesar de um grande número de estudos in vitro e in vivo feitos para descobrir os mecanismos espásticos e para encontrar um tratamento adequado.  Provavelmente muitos fatores contribuem para o desenvolvimento de isquemia e infarto, incluindo mas não se limitando a distúrbios da microcirculação distal, anatomia colateral pobre, e variações genéticas ou fisiológicas para a tolerância de isquemia celular.

                As recomendações para o tratamento do vasosespasmo, segundo a American Heart Associação/American Stroke Association são:

1. Nimodipina oral deve ser administrada a todos os pacientes com HSA (Classe I, Nível de evidência A). (Deve-se notar que este agente foi mostrado para melhorar a resposta neurológica, mas não o vasoespasmo cerebral. O valor de outros antagonistas de cálcio, se administradas oralmente ou por via intravenosa, permanece incerto.)
2. Manutenção de euvolemia e volume sanguíneo circulante normal é recomendado para evitar isquemia cerebral tardia (Classe I; Nível de evidência B).
3. Hipervolemia profilática ou balão de angioplastia antes do desenvolvimento de espasmo angiográfico não é recomendado (Classe III, Nível de Evidência B).
4. Doppler transcraniano é razoável para monitorizar o desenvolvimento de vasoespasmo arterial (Classe IIa; Nível de evidência B).
5. A imagem de perfusão com tomografia computadorizada ou ressonância magnética pode ser útil para identificar potenciais regiões de isquemia do cérebro (Classe IIa; Nível de evidência B).
6. Indução de hipertensão é recomendado para pacientes com isquemia cerebral tardia, a menos que a pressão arterial esteja elevada no inicio do tratamento ou o estado cardíaco contraindique  (Classe I, Nível de evidência B).
7. Angioplastia cerebral e/ou terapia vasodilatadora intra-arterial seletiva é razoável em pacientes sintomáticos com vasoespasmo cerebral, particularmente aqueles que não estão respondendo rapidamente a terapia hipertensiva (Classe IIa, Nível de evidência B).

REFERÊNCIAS

Guidelines for the Management of Aneurysmal Subarachnoid Hemorrhage A Guideline for Healthcare Professionals From the American Heart Association/American Stroke Association. Stroke, p. 1-27. June 2012. Disponível em: <http://stroke.ahajournals.org/content/early/2012/05/03/STR.0b013e3182587839.full.pdf> Acessado em: 11 Set. 2015;


NIKITINA, Tatiana et al . Effects of iodinated contrast media in a novel model for cerebral vasospasm. Arq. Neuro-Psiquiatr.,  São Paulo ,  v. 73, n. 2, p. 125-131, Feb.  2015 .   Disponível em <http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0004-282X2015000200125&lng=en&nrm=iso>. Acessado em  11  Set.  2015

Por: Luíza Villarim
Acadêmica de Medicina
Membro da LIPANI

TRAUMATISMO CRANIOENCEFÁLICO ASSOCIADO A TRAUMATISMO RAQUIMEDULAR CERVICAL


O traumatismo cranioencefálico (TCE) é uma das doenças mais frequentes na prática neurocirúrgica. É a principal causa de morte em adultos jovens com menos de 45 anos e crianças entre 1 e 15 anos de idade. Em pacientes politraumatizados, a cabeça é a parte do corpo mais frequentemente lesada, podendo ocorrer uma variedade de lesões. O TCE pode resultar em danos psicológicos, sociais e físicos. Déficit sensoriomotor, de linguagem, comprometimento emocional e cognitivo, e consequentemente, deterioração da capacidade funcional e qualidade de vida.

O traumatismo raquimedular (TRM), por sua vez, pode ser definido como uma lesão direta ou indireta sobre a medula que implica no comprometimento completo ou incompleto das funções motoras, sensitivas, autonômicas ou reflexas abaixo do nível da lesão. É uma causa importante de incapacidade, com elevado custo socioeconômico.

O TCE e o TRM estão entre as principais causas de morbimortalidade, sendo assim, quando ocorrem em associação, um pior prognóstico aguarda o paciente. Fazer o diagnóstico e o manejo do TRM cervical nos pacientes com TCE é problemático, uma vez que muitos desses pacientes apresentam um rebaixamento do nível de consciência. A incidência relatada na literatura de TRM cervical em pacientes com TCE tem variado de 4% a 8%. Instituir o diagnóstico precocemente é fundamental, para que esses pacientes recebam o tratamento mais adequado e, uma reabilitação otimizada, uma vez que esses pacientes geralmente permanecem hospitalizados por longos períodos e possuem um alto risco de morte.

REFERÊNCIAS:

1- Holly LT, Kelly DF, Counelis GJ, Blinman T, McArthur DL, Cryer HG. Cervical spine trauma associated with moderate and severe head injury: incidence, risk factors, and injury characteristics. J Neurosurg (Spine 3), 2002; 96, 285-291.

2- Michael DB, Guyot DR, Darmond WR.  Coincidence of head and cervical spine injury. J Neurotrauma, 1989; 6 (3), 177-189.
3- Neto JSM, Tognola WA, Spotti AR, Morais DF. Analysis of patients with spinal cord trauma associated with traumatic brain injury. Coluna/Columna, 2014; 13(4), 302-305.

4- Andrade AF, Figueiredo EG, Teixeira MJ, Taricco MA, Amorim RLO, Paiva WS. Neurotraumatologia. Rio de Janeiro: Guanabara Koogan; 2015; 396p. 

Por: Thiago Sipriano
Acadêmico de Medicina
Membro da LIPANI

quinta-feira, 13 de agosto de 2015

O que é Neuroproteção?

A neuroproteção é uma forma de prevenção dos mecanismos que conduzem à morte neuronal contrariando a cascata de eventos que conduz à morte celular e influencia o prognóstico funcional do indivíduo a longo prazo, minimizado por uma intervenção de cuidados. Consiste na resistência neuronal a um estímulo agressor.

O emprego de neuroprotetores em medicina não é recente. Observou-se que, a despeito da etiologia da lesão primária, danos tardios atingem neurônios inicialmente não afetados pelo estímulo agressor. Qualquer que seja esse estímulo (trauma - incluindo o barotrauma, edema, inflamação, isquemia, etc.) fazem com que alterações bioquímicas sensíveis sejam sentidas no meio ambiente metabólico dos neurônios vizinhos àqueles inicialmente agredidos, promovendo perda neuronal secundária, mesmo após a cessação da agressão primária. A neuroproteção é capaz de regularizar esse meio ou de aumentar a resistência neuronal. Estudos vêm sendo feitos para o tratamento de doenças que afetam o SNC, destacando-se o Parkinson, acidentes vasculares cerebrais e doenças degenerativas.

Medidas neuroprotetoras incluem posicionamento da cabeça, controle estrito da temperatura corpórea, da glicemia, hemodinâmica, oxigenação, homeostasia interna e utilização de fármacos.

A manutenção de oxigenação e pressão arterial adequadas é fundamental no cuidado neuroprotetor de pacientes com lesões cerebrais, como a hemorragia subaracnóidea.

Assim, definir a melhor estratégia de proteção do sistema nervoso tem significativa importância na redução de danos neuropsicológicos. 
  

Referências:

MARIGO, F.A.; CRONEMBERGER, S.; CALIXTO, N. Neuroproteção: situação atual no glaucoma. Arq. Bras. Oftalmol.,  São Paulo ,  v. 64, n. 2, p. 167-171, Apr.  2001 .

CORNEJO, R. et al . Hemofiltração de alto volume e ventilação em posição prona em hemorragia subaracnóidea complicada por grave síndrome do desconforto respiratório agudo e choque séptico refratário. Rev. bras. ter. intensiva,  São Paulo ,  v. 26, n. 2, p. 193-199, jun.  2014 . 

DIAS, L.A. A. et al . Avaliação da isquemia cerebral focal induzida pela oclusão da artéria cerebral média e a ação neuroprotetora do cetoprofeno em ratos. Arq. Neuro-Psiquiatr.,  São Paulo ,  v. 58, n. 4, p. 1047-1054, dez.  2000 .


NUNES, R. R. et al . Anestésicos, precondicionamento e proteção cerebral. Rev. Bras. Anestesiol.,  Campinas ,  v. 63, n. 1, p. 129-138, Feb.  2013 . 


Por: Jeanina Cabral
Acadêmica de Medicina
Convidada da LIPANI

sexta-feira, 7 de agosto de 2015

VENTRICULITE

Ventriculite é um quadro caracterizado por pleocitose ventricular, glicose baixa e presença de bactérias no ventrículo. Geralmente está associada a prematuridade e meningite bacteriana por gram negativo, ou à presença de corpos estranhos (derivações ventriculares, derivação ventricular externa e ferimentos penetrantes). Pode ocorrer em até 39% dos pacientes com derivação ventricular, mas a maioria das publicações relata uma incidência de 1% a 15%. Menos frequentemente associam-se a mielomeningoceles ou a ruptura de abscesso para o interior do ventrículo.

As infecções das derivações liquóricas constituem um dos mais sérios problemas destes procedimentos devido ao seu potencial de complicações graves. A alta frequência de infecção nestes procedimentos esta relacionada à presença de um corpo estranho que pode ser colonizado por bactérias de baixa virulência. A maioria das infecções acontecem nos primeiros 2 meses após a implantação da derivação. Os agentes etiológicos destas infecções são germes da pele. A maioria destes germes são estafilococos coagulase-negativa (60% resistentes a múltiplos antibióticos). Outros germes frequentes são o Staphylococcus aureus e bacilos gram negativos. Os pacientes com derivações liquóricas e corpos estranhos (projétil de arma de fogo, por exemplo), são acometidos por Staphylococcus epidermiditis em aproximadamente 54% dos casos, por Staphylococcus aureus  em cerca de 25% dos casos e o restante por outras bactérias. Os pacientes com derivação ventricular externa têm infecção ventricular por germes hospitalares. Outros organismos como fungos, podem causar ventriculite em pacientes portadores de derivações ou com ventriculostomias.

Não existe uma síndrome específica de ventriculite, pois os sinais são febre, toxemia, alteração no nível de consciência e sinais de hipertensão intracraniana. Também podem ocorrer alterações dos sinais vitais (comprometimento do IV ventrículo), e do equilíbrio hidroeletrolítico (comprometimento do III ventrículo e hipotálamo). Os sinais meníngeos são obervados em 25% dos casos.  A confirmação diagnóstica é feita através do exame do LCR ventricular, obtido por punção direta, ou por punção da válvula ou reservatório, a depender do caso. O critério para confirmação da infecção ventricular é a presença de mais de 10 leucócitos polimorfonucleares acompanhada da positividade do gram e/ou da cultura.

O tratamento deve ser instituído prontamente com antibioticoterapia sistêmica com drogas as quais os germes mais comuns sejam sensíveis e que atravessem as barreiras hematoencefálica e hemato-liquórica. A antibioticoterapia intra-tecal também pode ser realizada, sendo feita na maioria dos casos. A antibioticoterapia intra-tecal tem fundamental importância nos casos em que o germe é sensível a um antibiótico que não atravessa a barreira hematoencefálica. A antibioticoterapia inicialmente empírica, deve ser guiada pelo resultado da cultura. Em pacientes com derivação ventricular externa ou derivação ventriculoperitoneal, a troca/retirada do sistema de drenagem é indicada.


BIBLIOGRAFIA


1- COLLI, B. O. Complicações cirúrgicas das infecções bacterianas intracranianas. FMRP, USP. Disponível em < http://www.rca.fmrp.usp.br/graduacao/rcg511/texto2 >. Acesso em 18 de jul. 2015.

Por: Thiago Sipriano
Acadêmico de Medicina
Membro da LIPANI

terça-feira, 7 de julho de 2015

Edema Cerebral: Citotóxico, Vasogênico e Intersticial

O edema cerebral está entre as principais causas de morbimortalidade em pacientes com lesão cerebral aguda. Como definição simplificada teremos um aumento do volume de água no conteúdo cerebral. A etiologia dessas lesões cerebrais são diversas e comumente incluem o Trauma Crânio Encefálico (TCE), Hemorragia subaracnóidea (HSA), Acidente Vascular Cerebral Isquêmico (AVCi), Hemorragia intracerebral, entre outras.

O edema cerebral é o acúmulo de líquido intracerebral podendo ser localizado ou difuso. De acordo com os mecanismos fisiopatológicos Klatzo em 1994 classificou o edema cerebral em citotóxico e vasogênico. Em 2005 Fishman acrescentou o subtipo intersticial. A depender do momento e curso da doença os subtipos podem ser conjugados.

Imagem 1. Dr. Igor Klatzo
O edema citotóxico é causado principalmente por isquemia cerebral, com evolução que depende de minutos ou horas podendo ser reversível, sendo caracterizado por uma lesão celular primária que leva a disfunção da bomba Na+ ATP-dependente. Daí existe um acúmulo do íon Na+ intracelular induzindo, consequentemente, a entrada de água (do meio extra celular para o intracelular) para dentro da célula. No início desse processo não ocorre edema cerebral pois o volume cerebral não se modifica, pois, a água apenas mudou sua localização, no que antes estava extracelular e agora intracelular.
Após um determinado tempo de evolução desse defeito de bomba Na+ ATP-dependente teremos a quebra da BHE. A partir daí o sistema antes isolado inicia a ter contribuição do conteúdo vascular, e inicia-se o processo de edema cerebral propriamente dito. Como as células da glia estão em maior número quando comparadas aos neurônios (20:1) e são mais suscetíveis a esse tipo de edema, isso levará a um rápido acúmulo de água intracelular.
O motivo pelo qual as células da glia serem mais aptos a esse edema é explicado pelo envolvimento delas com o clearence de K+ e glutamato. Durante uma isquemia há o aumento de glutamato no dialisado, provavelmente devido a diminuição da captação de glutamato pelas células gliais, devido à insuficiência energética celular. O glutamato promove a abertura de canais de Ca++ neuronais iniciando um afluxo patológico de cálcio levando consequentemente ao dano celular. Reinstrup et al. em 2000 relatou o valor normal de glutamato em pacientes sedados é de aproximadamente 10 µM e um pouco mais elevado em pacientes não sedados.
Em relação ao tratamento podemos falar que os esteroides são contraindicados para tratamento, diferentemente do manitol que pode ser uma solução para tratamento.

O edema vasogênico é uma lesão que afeta predominantemente a substância branca do cérebro pois é constituída de bandas paralelas de fibras sem interconexões solidas. Por apresentar alta densidade celular com muitas conexões intercelulares, a substancia cinzenta é menos suscetível ao edema. É tipicamente induzido pelas condições como hemorragias, infeções, convulsões, TCE, tumores, lesão por radiação e encefalopatias hipertensiva. É um edema que necessita de horas a dias para ser formado, e é considerado um processo irreversível.
Esse tipo de edema está diretamente ligado a condições que rompem a BHE devido ao aumento da permeabilidade vascular e consequente a fuga de componentes do plasma. A quebra da BHE promove o extravasamento do plasma e de seu conteúdo proteico, que é altamente osmótico. Esse extravasamento obedece à equação de Starling, relacionando as diferenças de pressão hidráulica e osmótica dos diferentes compartimentos. Esse tipo de edema também ocorre tardiamente em condições isquêmicas, como discutido anteriormente.
Em relação ao tratamento deste subtipo de edema pode-se falar que os efeitos de esteroides e manitol são eficazes.

O edema intersticial (Hidrocefálico) que se manifesta como hidrocefalia aguda ou crônica é uma consequência da deficiência de absorção que leva o aumento do líquido cefalorraquidiano (LCR). Estálocalizado no fluxo transependimário de LCR e edema intersticial na substancia branca periventricular, na hidrocefalia. Neste caso o fluido extracelular estará aumentado. Alguns autores costumam classificar o edema intersticial como subtipo especializado do vasogênico.
A forma de tratamento neste caso já é questionável em relação ao manitol e ineficaz quando se fala dos esteroides.

Clinicamente, qualquer subtipo de edema cerebral pode causar hipertensão intracraniana e agravar os sinais e sintomas da doença básica.
  
Imagem 2. Quando há edema o cérebro aumenta de volume e é comprimido contra a
superfície interna da calota craniana, que é lisa.
Isto leva a aplanamento dos giros e apagamento dos sulcos, que são o melhor meio
para diagnosticar edema cerebral na macroscopia.

Imagem 3. O intenso edema, acompanhado por hemorragia
subaracnóidea, foi causado por trauma de crânio. Unicamp.
Em geral, como aspecto macroscópico do cérebro com edema teremos como principal critério diagnóstico A convexidade dos hemisférios cerebrais que estará aplanada por compressão contra a superfície lisa do crânio, produzindo aplanamento dos giros e apagamento dos sulcos. Outros fatores que podemos observar são: aumento de peso e de volume; hérnias de um ou mais tipos; ao corte, aumento de volume de um ou ambos hemisférios; ventrículos reduzidos de volume (caso não seja do subtipo intersticial). O aspecto das substâncias branca e cinzenta difere pouco do normal, mas pode haver borramento do limite entre ambas. Em edemas de longa duração, como em volta de abscessos cerebrais crônicos, a substância branca pode ficar acinzentada ou esverdeada.
No aspecto microscópico analisaremos distintamente as substâncias branca e cinzenta. Iniciando com o edema da substância branca teremos a presença de uma textura mais frouxa do tecido, podendo-se às vezes individualizar axônios. Se a duração do edema é de semanas ou meses, pode haver degeneração dos axônios e proliferação de astrócitos (gliose). No edema da substância cinzenta visualizaremos aspecto microvacuolado ou espumoso do neurópilo, espaços vazios perineuroniais e perivasculares, devidos à entrada de água nos prolongamentos astrocitários, (só visível em microscopia eletrônica).

Imagem 4. TC de Crânio - Visualiza-se o apagamento dos sulcos e
giros e também do ventrículo lateral direito.
  
Referência

Andrade, Almir Ferreira de - Figueiredo, Eberval Gadelha - Teixeira, Manoel Jacobsen - Taricco, Mário Augusto - Amorim, Robson Luis Oliveira de - Paiva, Wellingson Silva. Neurotraumatologia. 1ª ed. Guanabara Koogan. 2015.

Anatomia Patológica - UNICAMP

Anish Bhardwaj, MD, FAHA, FCCM, FAAN; Marek A. Mirski, MD, PhD. Handbook of Neurocritical Care, Second Edition. 2011.

Hideaki Hara, *Paul L. Huang, Nariman Panahian, *Mark C. Fishman, and Michael A. Moskowitz. Reduced Brain Edema and Infarction Volume in Mice Lacking the Neuronal Isoform of Nitric Oxide Synthase After Transient MeA Occlusion. Journal of Cerebral Blood Flow and Metabolism. 1996.

Michel T. Torbey. Neurocritical Care. Medical College of Wisconsin Milwaukee, Wisconsin 2009.

John P. Adams; Dominic Bell; Justin McKinlay. Neurocritical Care. A Guide to Practical Management. Springer London Dordrecht Heidelberg New York. 2010.

Urban Ungerstedt, Med Dr, Professor emeritus Dept of Physiology and Pharmacology, Karolinska Institute Microdialysis in Neurointensive Care. 3d edition. Stockholm, Sweden. 2012.


Por: Vernior Júnior
Acadêmico de Medicina
Presidente da LIPANI

quinta-feira, 2 de julho de 2015

Angioedema após infusão de alteplase no tratamento do AVCi

O angioedema é uma reação inflamatória potencialmente grave, sendo rara sua ocorrência no curso da trombólise. A incidência estimada de angiodema após o uso de alteplase no tratamento do AVCi varia de 0,02% a 5,1%.
O mecanismo do angiodema é a chamada reação anafilactoide, diferindo da reação anafilática, pois não há formação de IgE. Sua fisiopatogenia envolve a ativação do sistema fibrinolítico, com a clivagem do plasminogênio e formação de plasmina. A plasmina tem um papel fundamental no desencadeamento do angioedema, pois é responsável por converter o primeiro componente do sistema complemento (C1) na sua forma ativa, resultando na posterior ativação dos componentes C3 e C5, em suas formas ativas C3a e C5a, respectivamente. Esse sistema induz a liberação de histamina e outros mediadores inflamatórios, levando ainda ao aumento da bradicinina, um potente agente vasodilatador.
A bradicinina é inativada pela enzima conversa de angiotensina (ECA). Portanto, pacientes que fazem uso de inibidores de ECA (iECA) apresentam uma maior concentração desse peptídeo, tendo assim uma maior chance de desenvolver angioedema. O angioedema no tratamento do AVCi foi descrito pela primeira vez na literatura em 1997 em uma paciente que usava iECA. Pacientes que possuem uma deficiência de inibidor da esterase do complemento ou alguma anormalidade no metabolismo da bradicinina também possuem um maior risco de desenvolver angioedema.
Alguns autores defendem que o infarto do córtex da ínsula contralateral leva à desregulação autonômica e alterações do tônus vasomotor do lado hemiplégico. Associando-se a isso, a cascata da reação anafilactoide, resulta na localização do angioedema do lado parético. Isquemia insular pode estar associada a um maior risco de desenvolver angioedema.
Em todos os casos relatados o angioedema ocorreu entre 25 e 120 minutos após o início da terapia trombolítica. Por ser uma complicação potencialmente grave, a equipe assistencial deve estar ciente da possibilidade de sua ocorrência, para diagnosticar precocemente e instituir o tratamento o mais rápido possível.
A recomendação é que seja feita a inspeção cuidadosa da língua e da região orofaríngea a cada 30 minutos após o início da terapia com alteplase e ter particular atenção com aqueles pacientes que fazem uso de iECA, visando detectar o mais precocemente possível sinais de angioedema, levando ao pronto e efetivo tratamento.
O tratamento se baseia no uso de corticosteroides e anti-histamínicos, além de manter a via aérea do paciente, para isso a intubação orotraqueal pode ser necessária ou até mesmo procedimentos emergenciais como a cricotireoidostomia e ressuscitação. Essas medidas são eficazes na maioria dos casos, embora os dados disponíveis na literatura sejam oriundos de relatos de casos. O uso de adrenalina deve ser evitado devido o aumento do risco de hemorragia intracerebral com o aumento súbito da pressão arterial.

Referências:
1. Hill MD; Barber PA; Takahashi J; Demchuk AM; Feasby TE; Buchan AM. Anaphylactoid reactions and angioedema during alteplase treatment of acute ischemic stroke. CMAJ 2000; 162(9):1281-4.

2. Papamitsakis NIH; Kuyl J; Lutsep HL; Clark WM. Benign Angioedema After Throbolysis For Acute Stroke. Journal of Stroke and Cerebrovascular Diseases 2000. 9(2): 79-81.


3. Marrone LCP; Trentin S; Almeida AG; Gutierres LV; Marrone ACH; Martins SO; Friedrich MAG. Angioedema orolingual após infusão de alteplase no tratamento de acidente vascular cerebral. Relato de caso. Revista Brasileira de Neurologia 2009. 45(2): 35-38.

Por: Thiago Sipriano
Acadêmico de Medicina
Membro da LIPANI

segunda-feira, 18 de maio de 2015

ESCALA DE TOKUHASHI

A avaliação prognóstica antes do tratamento de metástases vertebrais é de extrema importância na escolha da modalidade terapêutica. A doença metastática vertebral é de difícil tratamento, tendo o prognóstico de vida do paciente como principal fator de decisão na escolha terapêutica. A escala de Tokuhashi é uma, dentre várias escalas que buscam determinar a sobrevida de pacientes portadores de metástases vertebrais. A escala de Tokuhashi é constituída de seis parâmetros que mensuram a gravidade do quadro clínico (como se segue na tabela 1). Cada parâmetro é graduado de 0 a 2 pontos, com exceção do sítio primário do câncer, que varia de 0 a 5 pontos, sendo que o zero significa pior prognóstico. A sobrevida é estimada de acordo com as pontuações obtidas (de 0 a 8 pontos, seis meses de sobrevida; 9-11 pontos, de seis a doze meses; 12-15 pontos, sobrevida superior a doze meses).
Embora a abordagem terapêutica ainda represente um grande desafio, pode ser facilitada por meio da padronização da conduta, com base em escalas como a de Tokuhashi.
A escala de resultados ou desempenho de Karnofsky (um dos parâmetros utilizados na escala de Tokuhashi) classifica os pacientes de acordo com o grau de suas inaptidões ou deficiências funcionais (quadro 1). Pode ser utilizada para comparar diferentes terapias ou como escala prognóstica em pacientes individuais. Quanto menor a classificação na escala, pior a expectativa de recuperação de enfermidades ou às atividades normais.



Quadro 1: Escala de Resultados de Karnofsky.
Apto para atividades normais e trabalho; nenhum cuidado especial é necessário.
100
Normal; nenhuma queixa; nenhuma evidência de doença.
90
Capacitado para atividades normais. Pequenos sinais e sintomas.
80
Atividade normal com esforço. Alguns sinais e sintomas de doença.
Inapto para o trabalho; apto para viver em casa e cuidar de muitas de suas atividades. As quantidades de assistência e suporte necessário são bastante variáveis.
70
Cuidados para si, incapaz para seguir com atividades normais ou trabalho ativo.
60
Requer ajuda ocasional, porém apto a cuidar de muitas de suas atividades pessoais.
50
Requer ajuda considerável e frequente assistência médica ou especializada.
Inapto para cuidar de si mesmo; requer cuidados hospitalares ou equivale especializado; doença pode estar progredindo rapidamente.
40
Incapacitado; requer cuidado especial e assistência.
30
Severamente incapacitado; admissão hospitalar é indicada, mas a morte não é iminente.
20
Muito doente; admissão hospitalar é necessária, necessitando de terapia e cuidados intensivos.
10
Moribundo; processo de fatalidade progredindo rapidamente.
0
Morte.


Tabela 1- Escala de Tokuhashi modificada (2005)
ERK: Escala de Resultados de Karnofsky






































Referências:

1- Tokuhashi, Y., Matsuzaki, H., Toriyama, S., Kawano, H. & Ohsaka, S. Scoring system for the preoperative evaluation of metastatic
spine tumor prognosis. Spine, 1990; 15 (11), 1110–1112.

2- Tokuhashi Y, Matsuzaki H, Oda H, Oshima M, Ryu J. A revised scoring system for preoperative evaluation of metastatic spine tumor prognosis. Spine (Phila PA 1976). 2005; 30(19):2186-91.

3- Mattana J., Freitas R., Mello G., Neto  M., Filho G., Ferreira C., Novaes C. Estudo da aplicabilidade do escore de Tokuhashi modificado nos pacientes tratados cirurgicamente nos pacientes tratados de metástases vertebrais.Rev Bras Ortop. 2011; 46(4):424-30.                            

 
Por: Thiago Sipriano
Acadêmico de Medicina
Membro da LIPANI


quarta-feira, 25 de fevereiro de 2015

A Hemorragia Subaracnóidea e sua Relação com Alterações Oftálmicas

A Hemorragia Subaracnóidea (HSA) é uma hemorragia intracerebral que se estende para o espaço subaracnóideo, usualmente ocupando cisternas basais. Nos casos de HSA espontânea, deve-se investigar a presença de aneurisma (adultos principalmente) e malformação arteriovenosa (crianças e jovens) para que se estabeleça diagnóstico e prognóstico mais precisos.

Uma alteração oftálmica clássica encontrada é a alteração no nervo oculomotor devido à compressão do mesmo por aneurismas de artéria comunicante posterior, resultando em um quadro clínico onde o paciente apresentará perda de todo o movimento da musculatura ocular extrínseca (com exceção dos músculos reto lateral e oblíquo superior), perda da regulação da convergência do cristalino e midríase do lado onde se encontra o aneurisma por paralisia dos músculos ciliar e esfíncter da pupila respectivamente.

Figura 1: Paciente com perda da função do nervo oculomotor direito devido aneurisma de artéria comunicante posterior, observando-se ptose palpebral (paralisia do músculo elevador da pálpebra superior).

Outras alterações oftálmicas que merecem destaque são as causadas por aneurisma de artéria oftálmica, ramo da artéria carótida interna que irriga o bulbo ocular e formações anexas. Pacientes com aneurismas nesta localização relatam diminuição da acuidade visual devido compressão da artéria pelo aneurisma.


Figura 2: Tomografia de crânio com presença de aneurisma em território de artéria oftálmica.




Referências

Locksley HB Report on cooperative study of intracranial aneurysms and subaracnoid hemorrhage, section v, Part II : Natural history  of subaracnoid hemorrhage, intracranial aneurysms  and arteriovenous  malformations. J Neurosurgery 1966; 25: 321-368.

Youmans, Julian R.  Neurological Surgery volume 2 1996.
Por: Carolinne Queiroga
Acadêmica de Medicina
Vice-presidente da LIPANI


quarta-feira, 18 de fevereiro de 2015

O quadrilátero de Pierre Marie e o Neurointensivism

Os Acidentes Vasculares Encefálicos Espontâneos mais frequentes estão associados à hipertensão arterial e localizados em sua grande maioria nos gânglios da base e tálamo, o que explica a relação do neurointensivismo com o quadrilátero de Pierre Marie, que sugere um distúrbio de linguagem a partir do comprometimento de algumas estruturas localizadas na área supracitada.
Figura 1: AVE Hemorrágico comprometendo o quadrilátero de Pierre Marie.

Figura 1: AVE Hemorrágico comprometendo o quadrilátero de Pierre Marie.


Para Marie (1906/1926d), o distúrbio fonético, um termo ainda inexistente na época, não pertencia ao domínio da afasia e deveria ter um outro nome. Ele sugeriu chamá-lo de "anartria". Segundo o autor, esse quadro é específico da emissão oral, sem outra alteração e, portanto, sem afasia. As emissões do paciente são distorcidas e incompreensíveis, o que torna possível confundir a anartria com a afasia de Broca. Entretanto, em oposição aos afásicos, os anártricos entendem perfeitamente o que lhes é dito, incluindo frases complexas e, além disso, podem ler e escrever.

Pierre Marie mantinha, entretanto, que a verdadeira afasia não se caracteriza pela ausência da elocução, mas por um distúrbio da compreensão, ou seja, um tipo particular de distúrbio intelectual e por anomalias na leitura e na escrita. Essas considerações, assim como sua rivalidade contra Dejerine, levaram-no a formular a famosa equação ¾ a lei de Pierre Marie sobre a natureza essencialmente diferente entre anartria e afasia:

"Afasia de Broca = Afasia de Wernicke + Anartria."


Pierre Marie também tinha suas idéias quanto às localizações lesionais da anartria e da afasia. Ele atribuía à primeira um distúrbio em diferentes componentes cerebrais, que mais tarde receberam o nome "quadrilátero de Pierre Marie": (1) proximidades do núcleo lenticular, isto é, o joelho da cápsula interna; (2) parte da cápsula externa; e assim como (3) possibilidade de uma lesão na zona do núcleo lenticular do lado direito.

Referência:
LECOURS, André Roch; PARENTE, Maria Alice de Mattos Pimenta; FEIJO, Adriana Vélez  and  MAIA, Alberto. Anartria Pura: Estudo de Dois Casos. Psicol. Reflex. Crit. [online]. 2001, vol.14, n.2, pp. 367-377. ISSN 0102-7972.  http://dx.doi.org/10.1590/S0102-79722001000200011.

Por: Carolinne Queiroga
Acadêmica de Medicina
Vide-presidente da LIPANI